Forbes | Maria João Bahia: Vida nas jóias

Apaixonada pela oficina, onde ainda tenta ir todos os dias, a designer revela que nos próximos quatro anos vai dedicar-se à internacionalização da marca. Sem nunca deixar de criar.

Celebra 32 anos de carreira, umas décadas mais de vida, e está segura de que fez o caminho que sempre quis fazer. Com calma, sem grandes devaneios, baseado naquilo que ainda hoje é o seu modo de trabalhar e de gerir a empresa: cautela e respeito.

Maria João Bahia, designer de jóias, joalheira, recebe a FORBES de bata vestida. “Vim da oficina, sim”, responde com um sorriso antes de revelar que é lá que gosta de passar a maior parte do seu tempo, ainda hoje.

Na Avenida da Liberdade, o seu espaço é a única joalharia com peças exclusivamente portuguesas, e da sua autoria. Foi nesta loja que um dia entrou um senhor com vários pares de sapatos para que ela pusesse todas as fivelas em ouro – e pediu o mesmo para as argolas do porta-chaves e demais acessórios; é aqui que entram os clientes que lhe pedem peças mais ou menos pessoais, e foi aqui que desenhou e criou o relicário que o Patriarcado de Lisboa ofereceu ao Papa Bento XVI, contendo uma relíquia de S. Vicente, que ela própria escolheu e retirou do túmulo do santo padroeiro da cidade de Lisboa.

Este ano começou a trabalhar na internacionalização da marca “mais a sério”. Conta com a ajuda do filho mais velho, João, que há cerca de um ano se juntou à empresa que conta com cinco funcionários, para além dela. A facturação ultrapassou, em 2015, a fasquia de um milhão de euros – em 2012 facturou pouco mais de 200 mil euros – feito que repetiu nos últimos dois anos.

Portanto, está na hora de atacar os mercados internacionais mais a sério. “Só agora é que tenho tempo para pensar nisso”, admite antes de esclarecer que já trabalha muito para outros países, embora nunca se tenha aventurado para além de trabalhos ou exposições pontuais.

Maria João é uma mulher cheia de simplicidade e palavras directas. Focada, criativa, exigente, só tem um dos filhos a trabalhar consigo, mas fez questão de estimular a criatividade de todos desde cedo, em casa. O marido, engenheiro de profissão, não sendo artista é um apreciador das coisas bonitas e a relação foi-se fundando nessa dualidade de paixões e profissões tão díspares.

“Vamos entrar com corners em nome próprio em duas cidades dos EUA já na Primavera de 2018, bem como em Londres”. Madrid já conquistou e o Médio Oriente também está na calha. No entanto, Maria João não entra em qualquer país sem absoluta certeza de que será para correr bem. “Cheguei a estar com um pé em Angola, mas a verdade é que tenho muitos clientes que gostam de vir até aqui, então não estava segura”, conta a título de exemplo.

Admite que sente que hoje os negócios parecem demasiado rápidos, pouco estruturados. Mas não foi assim que construiu a sua carreira e portanto não se importa de ter paciência.

“Detesto gastar dinheiro sem necessidade”, confidencia antes de contar que só ao fim de 15 anos de estar a trabalhar em nome próprio é que saiu da sua primeira, velhinha e pequena oficina. “Realmente, agora que penso nisso, não foi nada rápido”, afirma descontraída.

Empresária sem pressa

É, aliás, na Baixa de Lisboa que começa a história desta artesã. Ainda estudou Direito ao mesmo tempo que tirava o curso de ourivesaria, mas as leis perderam a corrida. Com um pai escultor, as artes não eram, na sua família, um caminho estranho a percorrer.

Dedicou-se de corpo e alma às jóias, estagiou numa oficina de pratas, onde aprendeu a cinzelagem e a repuxagem, e depois numa oficina de ourivesaria “onde se faziam peças enormes, muitas delas para os Estados Unidos”.

De repente, surge a oportunidade de ficar com um pequeno espaço na Rua da Madalena, que estava para trespasse. Foi aí que começou a trabalhar em nome próprio. “Nos primeiros dois anos só fazia arranjos, claro. Ninguém sabia quem eu era”, explica.

Além disso, “não havia mulheres joalheiras na altura”, e Maria João era “uma miúda”. Começou então a fazer as próprias peças, em prata – “não tinha dinheiro para mais e nunca pedi um empréstimo para nada”, assegura – e o passa-palavra começou a funcionar.

O design contemporâneo e as linhas delicadas foram conquistando cada vez mais clientes, que eram simpaticamente atendidos pela mãe de Maria João. “Eu tinha que estar na oficina, e a ir aos clientes. A minha mãe deu-me uma grande ajuda”, durante cerca de oito anos, estima.

“Não, nunca lhe paguei”, conta com uma gargalhada antes de esclarecer que, no início, tudo o que ganhava era para voltar a investir. Cedo começaram a surgir desafios que lhe alavancariam a carreira, ao mostrar a sua versatilidade enquanto artista: desenha copos e objectos de mesa para a Atlantis, figurinos para Filipe La Féria, acessórios, cintos e carteiras em pele e prata para a Portugália vender a bordo.

Mais recentemente, continua a surpreender ao desenhar peças de gastro-joalharia para chefs com estrelas Michelin. “Acho que tive muita sorte, no meio disto tudo”, confidencia à FORBES sob o olhar atento do filho João que atira um “mas também trabalhou sempre imenso!”. A designer encolhe os ombros e responde-lhe “está bem, mas isso era suposto”.

Já este ano, Maria João foi a autora do terço que, por ocasião do Centenário das Aparições de Nossa Senhora de Fátima, foi oferecido ao Papa Francisco. “A mãe adorou receber os postais de agradecimento dos Papas”, antecipa-se João quando lhe perguntamos que momentos a marcaram de forma especial na sua carreira. Não consegue contabilizar as peças que já e criou.

“Olhe…mais de milhares”, diz de sorriso aberto. “Realmente nunca pensei nisso”, diz olhando para o filho, como quem avisa que precisará de um inventário em breve. Continua a inspirar-se na arquitectura e na natureza para as suas criações – o seu anel de noivado, que foi feito por si [e comprado de surpresa pelo então noivo] é um exemplo disso mesmo, ao gritar natureza em cada curva, espelhando o seu carácter enquanto artista: delicada, arrojada, resistente e muito muito exigente.

Fonte: Forbes

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